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Fev 10

Gonçalo Silva – Um dos “duros” do Touch Guy 2010!

O dia 31 de Janeiro de 2010 ficará na memória de Gonçalo Silva, após concluir uma das provas mais duras em que participou, o “Tough Guy”. Um evento que se realiza há 20 anos em Perton, Inglaterra.

Pelas características especiais que rodeiam este desafio e as condições a que estão expostos os corajosos participantes, a superação é muito mais que física. A transposição de vários obstáculos artificiais, lagos de águas gélidas, saltos e muita lama elevaram a exigência psicológica, necessária para ultrapassar o frio que se fez sentir, e que constituiu a maior dificuldade que o atleta madeirense teve que superar, para concluir este evento na 816.ª posição, entre os 3683 bravos que terminaram, dos 5000 candidatos à partida.

Gonçalo Silva conta a experiência vivida nesta prova, partilhando toda a história da sua participação numa entrevista concedida ao “blog” de Trail do Clube Aventura da Madeira.

  • Gonçalo explica-nos em que consiste o desafio do “Tough Guy”, agora que és um dos que concluíram esta dura prova?

O “Tough Guy” é um teste aos nossos limites expondo o nosso corpo, num pequeno espaço de tempo, a condições físicas muito adversas. Trata-se de um circuito que dá quase duas voltas a uma enorme quinta. A primeira parte da prova é praticamente seca, que nos possibilita aquecer bem o corpo e estarmos mais preparados para a segunda parte molhada e fria. Começamos num cenário épico, digno de um filme de guerra, após o tiro de um canhão da 1º Guerra Mundial partimos em direcção a uma densa cortina de fumo onde não temos mesmo visibilidade alguma, indo aos encontrões com alguém que nos surja pela frente, de lado, detrás… depois temos um cross durinho com uns obstáculos para saltar e uma série de subidas e descidas num encosta com inclinação a aumentar cada vez mais, era o “Slalom” que nos fez aquecer muito bem, mas desgastou a maior parte dos participantes. Logo depois começam os verdadeiros obstáculos, lama, água e frio… é a entrada nos “Campos Assassinos”, obstáculos e obstáculos todos uns atrás dos outros até a meta no celeiro!!! Esta última secção, chamada então de “Campos Assassinos”, é a razão desta prova onde se concentram os familiares e apoiantes dos participantes…onde se desenrola a acção principal.

  • Ficaste surpreendido relativamente às tuas expectativas iniciais? A prova foi mais dura que pensavas ou estava dentro das perspectivas apresentadas pela organização através das imagens e dos vídeos de edições anteriores?

Quando cheguei ao lugar da prova fiquei surpreendido, até mais intimidado, pois o cenário assustava um pouco. Tudo o que era obstáculos de água estavam gelados, mesmo toda a superfície estava coberta por uma geada e só de pensar que ia ter que me meter dentro daqueles lagos gelados já me estava a doer o corpo todo. Mas depois a prova esteve dentro das minhas expectativas, mesmo de acordo com os vídeos que vi antes (especialmente em termos de obstáculos verticais), mas apesar de estar mentalizado do que ia ter que passar… o frio que se sente depois é inimaginável!

  • Qual foi o obstáculo mais difícil de transpor?

Sem dúvida todos que meteram água… muito fria mesmo! A temperatura ambiente era -3º antes do início da prova, quando cheguei ao local do evento, nevava ligeiramente e logo depois da prova nevou outra vez, mas com muito mais intensidade… os lagos estavam completamente gelados, com uma camada de gelo com espessura de 3cm. Os mais difíceis foram os que tive de mergulhar completamente na água gelada, nomeadamente o “túnel de água” onde temos de submergir uma série de troncos e que cada vez que emergimos para respirar era quase impossível, parecia que me estavam a comprimir de tal maneira a cabeça e o peito que não conseguia inspirar! O mesmo acontecia no “mergulho da morte”, um salto de uns 4 metros para um lago e éramos obrigados a nadar para sair, só que respirar ao nadar numa água gelada é complicado.

  • Algum relato de uma situação que te marcasse nesta prova?

São muitas as situações… começando pelo início mesmo antes da prova, conheci um português que também ia participar! Um emigrante em Luxemburgo que conhecia uns luxemburgueses que ficaram no mesmo hotel que eu, cheguei á prova com eles e nisto chega ao nosso pé um gajo com uma t-shirt de Portugal e a bandeira de Luxemburgo a servir de capa… estamos em todo o lado!!!!!

Depois o ambiente para a partida, os participantes são dispostos por grupos (sempre barulhentos): os Tough Guy Front Squad (individuias e equipas que conseguiram terminar uma edição anterior e serão os primeiros a sair ao tiro do canhão), depois são os Queen Wizzas (individuais e equipas) que juntamente com os Wobblemuckers partem dois minutos depois…de seguida partem os Wetnecks (os que não conseguiram terminar uma das edições anteriores) e finalmente são os Latebuggers, os Ghoons e os Dickheads (que praticamente fizeram a sua inscrição no último momento). Os grupos são dispostos então de acordo com o peitoral que mostra qual o nosso grupo, só que há uns espertos que metem-se num dos grupos que partem à frente. È um erro, entre os participantes andam uns Marslhals (juízes) disfarçados de bobo da corte que quando apanham um infractor, é levado debaixo de uma multidão aos apupos para um lugar elevado onde prendem-no pelas mãos e pescoço num instrumento da idade medieval para todos o verem e depois são colocados para últimos! Não é um nenhum momento violento, até pelo contrário, pois, toda a gente está à espera de ver qual é o desgraçado seguinte que vão gozar, sendo um momento de descontracção.

Depois de passar a meta, o cenário dentro do celeiro transformado em zona de assistência com enfermeiros e médicos, bebidas quentes e balneários é indescritível… primeiro nas bebidas quentes é só gente enrolada em mantas brilhantes, a tremer de tal forma, que derramam o chá quase todo e o pouco que conseguem manter dentro do copo quase não conseguem o levar á boca. Depois de beberem (o que conseguirem), passam então para os balneários onde ficam todos bem juntos debaixo de uma série de duches para começar a aumentar a temperatura corporal.

E é claro, as imagens que marcam esta prova… as caras de sofrimento dos participantes, alguns que seguem penosamente a tremer enrolados numa manta térmica (depois de uma assistência médica) e mesmo sem vontade vão se lançando novamente para a água gelada. Mas o que mais me impressionou foi a coragem de alguns participantes de tronco nu, alguns fazendo todos os obstáculos de água!!! Para mim foram os verdadeiros Tough Guys!!! Vi alguns praticamente com um fato de mergulho, o que acho uma situação um pouco injusta!!! Acho que a organização devia limitar o equipamento a usar, todos iam nas mesmas condições ou quase nas mesmas.. condições que deviam ser, claro as mais duras. Eu próprio corri com uma lycra nas pernas, uma t-shirt de actividades náuticas e uma Drif-fit de mangas longas por cima, mas para o ano vou só de calções e uma t-shirt… quase solidário com os “bravos do pelotão”! Aguentou… sim senhores, parabéns… não aguentou… paciência, para o ano há mais!

  • Como viste a convivência entre os participantes, antes, durante e depois da competição?

O ambiente que se vive na prova é de facto uma das melhores características. Logo antes da prova, há os primeiros relacionamentos entre os participantes… “De onde vens?”, “Primeira vez?”, “Que te fez vir cá para esta locura?”, são as perguntas habituais como meio de aproximação. Ao longo da prova é incrível o nível de inter-ajuda, à medida que um já ultrapassou o obstáculo ajuda imediatamente o que esta a seguir e assim sucessivamente. Sendo sempre uma “festa” quando encontramos alguém com quem falamos na zona da partida. Depois da prova são as normais trocas de impressões: “Os túneis de água foram o mais difícil.”, “Não conseguia respirar”, “não conseguia fechar as mãos”, etc… mas também a troca de contactos pessoais, após a promessa de um reencontro na próxima edição ou eventualmente numa outra prova.

  • Que conselhos darias aos potenciais estreantes nesta prova?

O grau de tolerância ao frio é diferente de pessoa para pessoa, mas o principal conselho é ter uma boa consciência do seu grau de tolerância e ir equipado para poder suportar aquele ambiente. Na prova vemos muita gente que não é praticante de desporto, mas que efectivamente termina a prova e com muito mérito também, e até chegam a ficar muito mais tempo expostos aquelas condições. Como seguem a um ritmo mais lento, não aquecem muito ficando logo muito mais sujeitos a uma hipotermia. Deste modo, uma ligeira preparação física irá ajudar bastante, pois sempre possibilitará aquecer o corpo um pouco e terminar mais rapidamente. As extremidades são as mais sacrificadas, deste modo uma boa protecção das mãos e pés será o mais indicado. As mãos, para podermos fazer os obstáculos verticais em segurança, pois perdemos quase por completo o controlo delas, com o frio é muito difícil conseguir fechá-las e fazer força, os pés para podermos correr mais confortáveis, pois depois dos primeiros obstáculos com água ficamos com eles como uma peça de vidro, cada passo é uma dor e parece que se vai partir. E muito importante, ao acabar a prova ir mudar o mais breve possível para uma roupa quente.

  • Esta é uma experiência para repetir?

Claro!!!! Por duas razões principais. a primeira que posso fazer uma melhor classificação, pois comecei com um ritmo lento a acompanhar os luxemburgueses que conheci no meu hotel, que acabei por ter de os deixar para trás pois estava sempre a esperar por eles (logo a arrefecer). Passei a prova toda a passar participantes, especialmente nos obstáculos, mas depois de terminar e fazer a análise do que passei e fiz, vi que podia ter seguido a um ritmo mais forte e conseguir um bom resultado mesmo… a segunda, é a de ter gostado muito desta experiência, o ter conseguido sobreviver aquelas condições faz-nos bem ao ego. Para ano poderei sair no Tough Guy Squad, que irá na frente a abrir o circuito sendo logo um desafio ligeiramente mais duro, pois como a organização (e Tough Guys anteriores) dizem… a água está mais quente depois de 2000 corpos passarem!

  • Quanto custou esta aventura depois de chegares a Inglaterra (transportes aeroporto, taxa da prova, alimentação, alojamento)?

A inscrição na prova quanto mais cedo for melhor, mas no mínimo serão 100€ a pagar. A viagem tive a vantagem de a Easy Jet voar directamente de Genebra para Birmingham, que fica muito perto do local da prova, e de lá segue-se de comboio até Wolverhampton. Em relação ao voo, como já se sabe, quanto mais cedo melhor e consegue-se viagem de ida e regresso a uns 60€, o comboio é barato, 15€ também ida e regresso a partir da estação do aeroporto até Wolverhampton, cuja estação fica a 200m do hotel que fiquei. O hotel arranjei estadia por 100€, duas noites, mas por minha culpa, pois se tivesse feito reserva quando me inscrevi na prova conseguia arranjar por 70€ e num hotel mais perto.

Fazendo as contas, juntando alimentação e alguma recordação da prova, a prova vai custar á volta de uns 350€.

  • A distância total e os obstáculos do “Tough Guy”  não se assemelham em nada a outros desafios que te lançaste anteriormente? Como surgiu a participação nesta prova?

Sim, praticamente nada em termos de formato, a não ser um ou outro raid de aventura que tenha participado onde também temos uma série de obstáculos a transpor. No Raid Millet, no ano passado aqui em Chamonix até que teve uma semelhança com o Tough Guy… o frio! Andamos acima dos 2000m na neve e numa das secções de manobras de cordas, tivemos que passar pelo rio logo abaixo do fim do Glaciar de Argéntiere, a água estava gelada!!!! Mas apesar de ser um formato diferente, tem o mesmo objectivo dos ultra trails, o de testar os nossos limites… objectivo este que foi a razão principal da minha participação.

A participação nesta prova surgiu quando estava a planear as provas que irei fazer este ano, pelo que obviamente procurei pelas provas mais curtas para o inicio do ano, aumentando gradualmente a distância delas de modo a me preparar para a prova que é o meu principal objectivo deste ano.

  • Qual o próximo desafio?

O “Tough Guy” foi de facto o primeiro desafio para este ano, que colocou bem alto o grau de dificuldade e de teste aos meus limites físicos e psicológicos. Como já referi na questão anterior, a participação nesta prova surgiu na planificação do calendário de provas a realizar este ano, e sendo assim, o plano de provas é sempre feito de modo a terminar com a prova mais dura… que será em Setembro!! Até lá irei fazer algumas provas como preparação, como mais relevantes, uma será um raid de BTT nos Alpes Suíços o “Grand Raid” com 120km’s e a outra será o “Ultra Trail du Toubkal”, um trail com 105km’s e 6500m de desnível que se realiza no início de Julho em Marrocos. Nesta prova terei a companhia do Nuno Caetano (que esta época irá realizar algumas provas de esqui alpinismo relevantes) e do Pedro Alves que irá comigo participar no grande desafio em Setembro… o “Tor des Géants”! Sem dúvida o maior desafio que eu e o Pedro iremos tentar nas nossas vidas… até ao momento!!!!! O “Tor des Géants” serão então 336km’s com 24000m de desnível positivo acumulado… NON STOP!!! 150 horas como tempo limite máximo, ou seja, 6 dias contínuos de esforço nos Alpes Italianos atingindo altitudes até os 3500m… um desafio que irá exigir uma preparação muito cuidada, que com a pouca experiência que tenho adquirido ao longo destes últimos anos, espero estar ao nível!!!

FOTOS :

Álbum Picasa de Gonçalo

VÍDEOS :

Reportagem

Perspectiva de um Tough Guy

  • Números e curiosidades do “Tough Guy”

▪ A prova contou com a participação de 5000 participantes, número este que é o limite de participantes, pelo que de certeza o número de tentativas de inscrição deve ter sido maior.

▪ 3683 conseguiram terminar.

▪ O vencedor foi Paul Vincent com o tempo total de 01:19.00.

▪ Lisa Foley foi a vencedora nas senhoras com a marca 01:37.53, posicionando-se na 119ª posição na geral.

▪ Gonçalo Silva classificou-se na 816ª posição levando 02:11.51 a completar o circuito inteiro.

▪ Esta edição contou com mais dois portugueses, o Henrique Harzee-Martins que ficou na 1067ª posição com o tempo 02:19.21 e Pedro Gomes Cordeiro na 2767º posição com o tempo 03:22.48.

▪ Realiza-se em Perton, próximo de Wolverhampton (Inglaterra).

▪ A prova foi criada nos anos 80 por um antigo veterano da guerra (conhecido como Mr. Mouse), que estava a ficar preocupado que os homens ingleses estavam a perder a sua virilidade.

▪ A prova existe a 20 anos e desde então foram investidos mais de 2 milhões de libras na construção e manutenção de 100 obstáculos numa quinta com 150 acres que pertence ao Mr. Mouse, onde vivem cerca de 200 cavalos que todos os anos são removidos para uma um outro local mais calmo.

▪ A prova não tem nenhum tipo de seguro, pelo que todos os participantes assinam uma “garantia de morte” onde ilibam a organização de qualquer responsabilidade de algum acidente que possamos sofrer, entramos na prova e fazemos os obstáculos por nossa única responsabilidade… a organização então antes da prova envia uma serie de documentos, onde indicam as possíveis consequências que podemos ter durante a prova e também como as prevenir, sendo as mais relevantes a hipotermia, quedas (e as possíveis escoriações e fracturas de ossos consequentes) e também a doença de leptospirose (também conhecida como Mal de Weil) que provêm de uma bactéria na urina dos ratos que ficam nas águas, e o contágio faz-se pelo contacto com feridas abertas, olhos, etc..

▪ A organização possui uma excelente logística a nível de socorro com uma equipa de médicos, enfermeiros, paramédicos e mergulhadores profissionais que respondem imediatamente a qualquer situação… em 1992 foi dos anos mais frios, tiveram 640 casos de hipotermia e prontamente tinham um hospital de campanha montado. Em pouco tempo recuperam um pessoa de uma hipotermia.

▪ À dois anos entrou um alemão apenas com uma tanga, sem luvas, toca, sem sapatilhas… nada!!!!!! O homem terminou a prova…

▪ As placas de gelo que cobriam os lagos e pequenas poças tinham 3/4cm de espessura, que pareciam facas a passar nas pernas.