{"id":394,"date":"2010-09-25T16:07:09","date_gmt":"2010-09-25T15:07:09","guid":{"rendered":"http:\/\/trail.camadeira.com\/?p=394"},"modified":"2010-09-25T23:42:33","modified_gmt":"2010-09-25T22:42:33","slug":"testemunhos-de-dois-geants","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/trail.camadeira.com\/?p=394","title":{"rendered":"Testemunhos de dois &#8220;G\u00e9ants&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"attachment_399\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/trail.camadeira.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/IMGP3997-c\u00f3pia.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-399\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-399\" title=\"IMGP3997 c\u00f3pia\" src=\"http:\/\/trail.camadeira.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/IMGP3997-c\u00f3pia-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"http:\/\/trail.camadeira.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/IMGP3997-c\u00f3pia-300x225.jpg 300w, http:\/\/trail.camadeira.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/IMGP3997-c\u00f3pia.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-399\" class=\"wp-caption-text\">Pedro e Gon\u00e7alo com os vencedores.<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi no passado s\u00e1bado, dia 19 de Setembro, que os atletas do Clube Aventura da Madeira Gon\u00e7alo Silva e Pedro Alves se tornaram finishers na primeira edi\u00e7\u00e3o do dif\u00edcil Tor des Geants, terminado ambos a prova em 145h11m na 148\u00aa e 149\u00aa posi\u00e7\u00e3o, respectivamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=A0k46fPtrgI\" target=\"_blank\"><strong>V\u00cdDEO DA CHEGADA DOS DOIS ATLETAS<\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=DD31G4VI6H4&amp;feature=player_embedded\" target=\"_blank\"><strong>V\u00cdDEO DA ENTREGA DE PR\u00c9MIOS FINISHER<\/strong><\/a> (a  partir do minuto 7 os dois atletas do CAMadeira)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/lnx.courmayeurtrailers.it\/cronometraggio_2010_tdg\/Classifiche.php\" target=\"_blank\"><strong>CLASSIFICA\u00c7\u00c3O FINAL<\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/picasaweb.google.com\/goncaloangola\/TorDesGeants2010#\" target=\"_blank\"><strong>\u00c1LBUM PICASA DE GON\u00c7ALO<\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s os dias de descanso merecidos, fica aqui o testemunho de cada um dos atletas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PEDRO ALVES :<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/trail.camadeira.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/IMGP3917-c\u00f3pia.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-395\" title=\"IMGP3917 c\u00f3pia\" src=\"http:\/\/trail.camadeira.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/IMGP3917-c\u00f3pia-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"http:\/\/trail.camadeira.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/IMGP3917-c\u00f3pia-300x225.jpg 300w, http:\/\/trail.camadeira.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/IMGP3917-c\u00f3pia.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>&#8220;Foi no passado dia 12 de Setembro que se iniciou mais um trail, o Tour Des Geants. Se \u00e0 partida este seria o trail mais longo e com mais desn\u00edvel em que alguma vez me vi envolvido, o decorrer da prova viria a me ensinar que seria muito mais que isso.<br \/>\nPelas 10 horas do dia 12 l\u00e1 estava com o Gon\u00e7alo, camarada destas andan\u00e7as desde sempre. Recordo-me ainda hoje das palavras do speaker que insistiu na m\u00e1xima de que esta prova para al\u00e9m de um Ultra Trail iria ser tamb\u00e9m uma aventura.<br \/>\nA prova estava dividida em 7 sectores sendo que no final dos primeiros 6 estava um abastecimento vital com direito a refei\u00e7\u00e3o quente, local para descansar, zona de banho, massagem e equipa m\u00e9dica. No final do ultimo sector estava a desejada meta. De referir entre estes grandes abastecimentos, haviam outros, s\u00f3 com l\u00edquidos, e outros tamb\u00e9m com algum abastecimento solido.<br \/>\nDesta forma partimos de Courmayeur na esperan\u00e7a que conseguissemos estar de volta cerca de 6 dias depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro sector foi finalizado em Valgrisenche, onde pudemos comer algo quente e descansar 2 a 3 horas. Este sector serviu imediatamente para mostrar o quanto dura iria ser a prova e o quanto ir\u00edamos ter de suportar para conseguir finaliza-la. Foi ent\u00e3o mais ou menos tra\u00e7ado o plano de realizar pelo menos um sector, antes de descansar um pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s o merecido mas reduzido descanso,\u00a0 partimos para o segundo sector que viria a se revelar muito dif\u00edcil e complicado para mim, devido a uma dor no tornozelo esquerdo, tendo sido necess\u00e1rio imobilizar esta articula\u00e7\u00e3o. Com passagens muito perto e outras acima dos 3000 metros de altitude e terrenos muito t\u00e9cnicos, a chegada a Cogne foi feita de maneira algo apreensiva da minha parte, pois apesar de cumprir 100 km sabia que ainda faltavam cerca de 230, e em piores condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais uma vez ap\u00f3s um curto descanso deu-se a partida para o terceiro sector que ao contr\u00e1rio dos dois anteriores era predominantemente a descer. Ap\u00f3s uma ascens\u00e3o at\u00e9 perto dos 3000, o restante percurso ate Donnas (ponto com menor altitude de toda a prova), decorreu sem grandes precal\u00e7os. Os 150 km&#8217;s estavam alcan\u00e7ados e haviam dois sentimentos opostos, o primeiro de que era poss\u00edvel terminar esta enorme aventura, e o segundo o de que qualquer precal\u00e7o mais s\u00e9rio poderia por fim a um trajecto onde j\u00e1 tinha sido investido tanto esfor\u00e7o. Nesta base vital foi poss\u00edvel tomar o primeiro banho que serviu tamb\u00e9m para relaxar os m\u00fasculos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s mais um curto descanso deu-se a partida para cumprir o quarto sector em que seriam cumpridos 36 km&#8217;s, que vieram a ser cr\u00edticos visto na \u00faltima descida at\u00e9 Gressonay me ter visto impossibilitado de marchar, tendo deambulado at\u00e9 o abastecimento e pondo em quest\u00e3o a continua\u00e7\u00e3o na prova. Ap\u00f3s exame posterior no controlo tudo indicava que seria um estiramento muscular na zona da t\u00edbia, e que nem sob aplica\u00e7\u00e3o de gelo e descanso mostrava querer ceder. Perante este cen\u00e1rio decidi, tentar imobilizar o p\u00e9 e continuar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/trail.camadeira.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/IMGP3914-c\u00f3pia.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignright size-medium wp-image-408\" title=\"IMGP3914 c\u00f3pia\" src=\"http:\/\/trail.camadeira.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/IMGP3914-c\u00f3pia-224x300.jpg\" alt=\"\" width=\"224\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/trail.camadeira.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/IMGP3914-c\u00f3pia-224x300.jpg 224w, http:\/\/trail.camadeira.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/IMGP3914-c\u00f3pia.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 224px) 100vw, 224px\" \/><\/a>Ainda que com dores, o facto de que o percurso ser em ascens\u00e3o, ajudou-me pois as dores n\u00e3o eram t\u00e3o intensas a subir. Desta etapa \u00e9 de referir as passagens estremamente t\u00e9cnicas por colos, com subidas e descidas altamente inclinadas, contando ainda com planaltos tamb\u00e9m de dif\u00edcil progress\u00e3o e com poucas fitas de sinaliza\u00e7\u00e3o, que ao que parece foram comidas por gado bovino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sexto sector apesar levou-nos at\u00e9\u00a0 Ollomont onde estava localizado o \u00faltimo abastecimento vital. Num percurso que se mostrou como sempre duro e dif\u00edcil, consegui alcan\u00e7ar o abastecimento vital e foi altura para mais um curto descanso e ent\u00e3o partir para os 50 km&#8217;s finais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste \u00faltimo sector fomos informados que seria poss\u00edvel descansar no refugio de Merdeux situado a cerca de 1900 metros de altitude, o que nao aconteceu, estando o controlo situado a cerca de 2300 metros de altitude e alguns kms mais a frente. At\u00e9 aqui tudo bem, pois mais progresso significava estar mais perto da meta. A grande surpresa foi o facto de o local ser uma vacaria e o para dormir termos uma cozinha sem qualquer condi\u00e7\u00f5es, sem ser o ch\u00e3o frio de azulejos, o que fez com que nem meia hora depois partisse em direc\u00e7\u00e3o ao \u00faltimo grande colo, o Malatr\u00e1 a cerca de 3000 metros de altitude, tendo este na sua parte final caracter\u00edsticas de uma verdadeira via alpina. Ap\u00f3s a transposi\u00e7\u00e3o desta \u00faltima grande dificuldade foi realizado o percurso ate o ref\u00fagio Bonatti onde tivemos de descansar cerca de uma hora e posteriormente ate o ref\u00fagio Bertone, dando-se ent\u00e3o a descida ate Courmayeur onde tive de parar e tirar uma foto, a que apelidei de Terra Prometida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A chegada \u00e0 meta foi feita juntamente com o Gon\u00e7alo e em corrida ligeira, partilhando a bandeira portuguesa. Foi sem d\u00favida o concluir da mais dif\u00edcil prova em que me vi envolvido. Foi altura de realmente perceber que esta prova era realmente uma aventura digna de apelidar de gigantes aos seus participantes. Foi tamb\u00e9m o momento de perceber todo o envolvimento do povo de Valle de Aosta que tanto contribuiu, quer seja ao n\u00edvel dos volunt\u00e1rios, que deram corpo a esta organiza\u00e7\u00e3o, quer ao n\u00edvel de todos os que desejavam for\u00e7a e \u00e2nimo para que cheg\u00e1ssemos a Courmayeur.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante alguns dias, semanas ou talvez meses ir\u00e3o ficar marcas f\u00edsicas deste acontecimento, mas certamente as recorda\u00e7\u00f5es ir\u00e3o ficar para sempre lembrando-me das grandes dificuldades, mas tamb\u00e9m do prazer que deu ultrapass\u00e1-las, podendo dizer que com orgulho fui FINISHER da primeira edi\u00e7\u00e3o do TOR DES GEANTS.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PS: Um Agradecimento muito especial ao meu companheiro desta e de muitas outras viagens, com quem felizmente pude partilhar esta jornada. Um grande abra\u00e7o ao camarada Gon\u00e7alo Silva. &#8220;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GON\u00c7ALO SILVA :<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/trail.camadeira.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/IMGP3918-c\u00f3pia.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-397\" title=\"IMGP3918 c\u00f3pia\" src=\"http:\/\/trail.camadeira.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/IMGP3918-c\u00f3pia-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"http:\/\/trail.camadeira.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/IMGP3918-c\u00f3pia-300x225.jpg 300w, http:\/\/trail.camadeira.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/IMGP3918-c\u00f3pia.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>&#8220;Dia 12 de Setembro e eu e o Pedro l\u00e1 est\u00e1vamos mais uma vez \u00e0 partida para mais uma aventura, mas esta bem mais dif\u00edcil que todas as outras, com uma maior incerteza de realmente a conseguirmos ultrapassar! Na minha cabe\u00e7a s\u00f3 pensava, que s\u00f3 daqui a 6 dias \u00e9 que ia terminar tudo!! Apesar de apreensivo, estar com o Pedro \u00e0 partida para este desafio fez-me acreditar mais, pois j\u00e1 fizemos muitos km&#8217;s juntos em provas anteriores, provas em que a companhia de um para o outro, foi muito importante para suportar muitas dificuldades que fomos tendo.<br \/>\nNum espectacular ambiente na partida em Courmayeur, partimos num ritmo bem lento pelas ruas cheias de gente a apoiar entusiasticamente os 355 aventureiros. Logo no \u00ednicio vimos como a prova iria ser, pois come\u00e7amos logo numa longa subida de 1300m de desn\u00edvel at\u00e9 aos 2571m do Col D&#8217;Arp, t\u00e9cnicamente foi uma subida n\u00e3o muito dif\u00edcil bem como a descida, mas em termos de passagens por Col&#8217;s a partir de ent\u00e3o foram sempre num terreno muito t\u00e9cnico e inclina\u00e7\u00f5es brutais! O primeiro dia fica na mem\u00f3ria pelas temperaturas muito frias nos colos, pelo que pelas 17h quando sub\u00edamos novamente um dif\u00edcil col tivemos (bem como os restantes dos atletas) parar para vestir o imperme\u00e1vel, pois o vento era muito forte e sempre debaixo de uma amea\u00e7a de chuva, que chegamos mesmo a apanhar na \u00faltima descida para Valgrisenche, onde era a primeira base vital. Cheguei antes que o Pedro, mas num estado muito d\u00e9bil, fraco e com muito frio&#8230; o local era muito pequeno e tratei rapidamente de comer e ir me deitar, pois dificilmente me aguentava em p\u00e9. Foi pouco tempo de sono, pois estava com febre e transpirava muito, naquelas duas horas transpirei mais do que o dia inteiro&#8230; acordei com o Pedro, completamente estonteado e sem vontade de seguir, valeu a insist\u00eancia do Pedro!!<br \/>\nNa segunda sec\u00e7\u00e3o come\u00e7amos ainda com um ritmo mais lento, pois vimos que o ritmo lento com que come\u00e7amos no primeiro dia era muito r\u00e1pido para o nosso objectivo. Este segundo foi muito duro mesmo, n\u00e3o tivemos o descanso esperado e tivemos que ultrapassar tr\u00eas dur\u00edssimos Col&#8217;s nomeadamente o Col Fenetre de Torrent (2840 m), Col Entrelor (3007 m) e Col Loson (3296m)&#8230; sendo estes dois \u00faltimos col&#8217;s muito t\u00e9cnicos com descidas iniciais de inclina\u00e7\u00f5es superiores a 50%, num terreno muito escorregadio e exposto, sendo extremamente proibido cair ali por estarmos sujeitos a uma queda de centenas de metros!! Apesar de ter sido uma sec\u00e7\u00e3o muito mais dif\u00edcil que a primeira, aguentamos bem e chegamos ao fim relativamente bem, pois tivemos mais atentos ao ritmo, alimenta\u00e7\u00e3o e hidrata\u00e7\u00e3o. Um aspecto negativo nesta sec\u00e7\u00e3o, foi o de o gr\u00e1fico de desn\u00edvel que eu e o Pedro lev\u00e1vamos n\u00e3o corresponder aos colos que \u00edamos fazendo, tendo um colo interm\u00e9dio n\u00e3o estar representado!! A base vital de Cogne ao km 102 foi muito importante para n\u00f3s, chegamos com uma boa margem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 barreira hor\u00e1ria, e podemos ent\u00e3o comer muito bem e ter umas boas tr\u00eas horas de sono.<br \/>\nA terceira sec\u00e7\u00e3o foi mais f\u00e1cil, sa\u00edmos bem recuperados e motivados por ser uma sec\u00e7\u00e3o com pouco desn\u00edvel a subir, apenas com um ligeira subida aos 2192m do Ref\u00fagio Dondena num terreno bem mais suave e depois sempre a descer at\u00e9 aos 300m da localidade de Donnas (km 148)&#8230; contudo a descida apesar de n\u00e3o ser muito inclinada, foi muito massacrante para as pernas, especialmente para as articula\u00e7\u00f5es. Na descida adiantei-me ao Pedro e cheguei \u00e0 base vital de Donnas na companhia da Doone, uma simp\u00e1tica atleta do Canad\u00e1. Esta base vital tamb\u00e9m foi muito importante, ap\u00f3s um r\u00e1pido banho e uma boa alimenta\u00e7\u00e3o dormimos cerca de tr\u00eas horas&#8230; contudo estas horas de sono para mim, foram novamente de alguma febre e a garganta a incomodar ligeiramente, mas deu \u00e0 mesma para descansar bem.<br \/>\nPartimos para a quarta sec\u00e7\u00e3o ao cair da noite, para variar logo com uma subida, que come\u00e7ou ligeiramente at\u00e9 a uma final sec\u00e7\u00e3o muito t\u00e9cnica desde o Col Carisey(2124m) passando pelo Ref\u00fagio Coda (2224m) at\u00e9 ao Col Marmontana (2348m). Apesar de seguirmos ao mesmo ritmo lento, fomos passando alguns atletas que se notava bem o cansa\u00e7o e a dificuldade em progredir num terreno assim t\u00e3o t\u00e9cnico. Por ainda me sentir ligeiramente febril e a garganta me incomodar, esta sec\u00e7\u00e3o foi muito desgastante\u00a0 chegando a Gressoney completamente sem energia, tendo feito os \u00faltimo km&#8217;s apenas com o pensamento na nova paragem para poder comer e tentar dormir a ver se melhorava. No base vital fiz um tratamento choque para a garganta pedindo para me fazerem um grande copo com sumo de lim\u00e3o com mel de abelhas acompanhado com um antiflamat\u00f3rio a ver se melhorava significativamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/trail.camadeira.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/IMG_2916-c\u00f3pia.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignright size-medium wp-image-409\" title=\"IMG_2916 c\u00f3pia\" src=\"http:\/\/trail.camadeira.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/IMG_2916-c\u00f3pia-189x300.jpg\" alt=\"\" width=\"189\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/trail.camadeira.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/IMG_2916-c\u00f3pia-189x300.jpg 189w, http:\/\/trail.camadeira.com\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/IMG_2916-c\u00f3pia.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 189px) 100vw, 189px\" \/><\/a>Consegui partir de Gressoney bem melhor, e o in\u00edcio da pequena sec\u00e7\u00e3o 36km&#8217;s que tinhamos pela frente possibilitava seguir tranquilamente at\u00e9 Valtournenche, contudo depois do Ref\u00fagio Alpenzu apanh\u00e1mos temperaturas bem mais frias e depois do Col de Pinter (2276m) at\u00e9 ao Col de Nannaz (2772m) e a \u00faltima descida at\u00e9 Valtournenche a t\u00e9cnicidade do terreno teve consequ\u00eancias menos boas no tornozelo esquerdo e a n\u00edvel muscular nas coxas, tendo sido necess\u00e1rio imobilizar as zonas lesadas com o adesivo el\u00e1stico que tinha comigo. Nesta descida eu e o Pedro assistimos ao primeiro resgate de um atleta por helic\u00f3ptero, estava completamente a zero devido ao desgaste que teve durante a noite. Nesta etapa, eu e o Pedro come\u00e7amos a questionar os km&#8217;s percorridos, pois apesar de cansados o nosso ritmo a subir era o mesmo e est\u00e1vamos sempre a passar por atletas cansados, a subir muito poucas vezes fomos ultrapassados na prova toda, e est\u00e1vamos a demorar 2 horas a fazer 4 km&#8217;s!!!! D\u00favida que ficou esclarecida com o meu GPS, liguei durante umas sec\u00e7\u00f5es entre abastecimentos\u00a0 e deu 1km a mais no m\u00ednino em cada!!<br \/>\nValtournenche ficou marcada por comermos algo diferente, pela primeira vez em 5 dias comemos arroz. Eu estava bem desgastado, acabando por adormecer mesmo no ch\u00e3o do pavilh\u00e3o durante 3 horas. Antes de sair foi necess\u00e1rio imobilizar as duas coxas e o tornozelo com a equipa m\u00e9dica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sa\u00ed para esta etapa ainda de dia, o que facilitou a progress\u00e3o no in\u00edcio, mas conforme a noite foi ca\u00edndo o frio foi sendo cada vez maior bem como a dificuldade do terreno. Ao chegar ao segundo abastecimento sou sobrevoado pelo helic\u00f3ptero, ia resgatar mais um atleta que infelizmente tinha feito uma ruptura parcial do tend\u00e3o de Aquiles!! A noite foi passada com muita dificuldade, a progress\u00e3o no terreno era muito lenta e muito perigosa desde a subida ao Col Terray (2775m), passando pelo Col Chaleby e o in\u00edcio da descida do Col Vessonaz (2794m). O frio incomodava bastante, especialmente nas zonas expostas ao forte vento, o que para mim exigia dobrada aten\u00e7\u00e3o recorrendo v\u00e1rias vezes a usar a balaclava para tapar a boca e assim proteger a garganta. Valeu nesta sec\u00e7\u00e3o a proximidade dos ref\u00fagios e bivaques, tendo acesso mais r\u00e1pido a uma bebida quente pois as dos bid\u00f5es que lev\u00e1vamos estava gelada! Esta sec\u00e7\u00e3o ficou marcada pelas passagens de montanha mais duras, com descidas muito expostas e escorregadias, a inclina\u00e7\u00e3o era enorme e mais uma vez toda a aten\u00e7\u00e3o era m\u00ednima pois uma queda podia ter consequ\u00eancias muito m\u00e1s!! Para ajudar nesta sec\u00e7\u00e3o, nalgumas partes onde havia gado a pastar, a sinaliza\u00e7\u00e3o desapareceu completamente devido a ter sido ingerido pelas vacas, a aten\u00e7\u00e3o teve que ser maior pois a meio da noite com o corpo extremamente cansado e desejando de dormir a orienta\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi f\u00e1cil!!<br \/>\nEsta sec\u00e7\u00e3o ficou ainda marcada por mais uma falha da organiza\u00e7\u00e3o no gr\u00e1fico de desn\u00edvel e dist\u00e2ncias que nos diziam. No gr\u00e1fico n\u00e3o estava um colo representado e a partir do Bivaque Clermont (2700m), passando pelo Col Vessonaz (2794m) at\u00e9 Clos\u00e9 (1456m) a organiza\u00e7\u00e3o no papel dizia 9 km&#8217;s&#8230; com a descida eu e o Pedro achamos que era muito mais que essa dist\u00e2ncia e assim foi, um outro atleta com GPS mostrou e indicava 14km em vez de 9!!!! Ele mesmo, tamb\u00e9m disse que na primeira sec\u00e7\u00e3o, o GPS marcou 57km&#8217;s em vez dos 49 que a organiza\u00e7\u00e3o adiantou!!<br \/>\nClos\u00e9 ainda n\u00e3o era a base vital, faltava subir o Col Brison para ent\u00e3o descer at\u00e9 os 287km&#8217;s em Ollomont, mas como est\u00e1vamos com uma margem confort\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o a barreira hor\u00e1ria e muito desgastados da noite e eu estava pior das coxas, por isso deitei-me para dormir 2 horas com sacos de gelo nas coxas a ver se melhorava. O sono foi r\u00e1pido e num instante eu e o Pedro, que tamb\u00e9m dormiu, voltamos aos trilhos em direc\u00e7\u00e3o \u00e1 \u00faltima base vital em Ollomont.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este \u00faltimo &#8220;grande&#8221; descanso fez-nos muito bem, a prioridade foi comer muito bem, mudar de roupa e tratar dos nossos m\u00fasculos e articula\u00e7\u00f5es. Dormi novamente uma hora, com gelo nas coxas e no tornozelo, e voltei a imobilizar tudo de novo antes de sair. Sa\u00edmos os dois juntos para esta \u00faltima sec\u00e7\u00e3o, confiantes no nosso sucesso mas tamb\u00e9m conscientes que com o nosso estado o surgimento de alguma les\u00e3o podia ser bem f\u00e1cil. L\u00e1 seguimos lentamente, descontra\u00eddos em rela\u00e7\u00e3o \u00e1s barreiras hor\u00e1rias. Os trilhos em compara\u00e7\u00e3o aos anteriores nada tinham a ver, era poss\u00edvel marchar bem r\u00e1pido e seguir num ligeiro trote, especialmente at\u00e9 Saint Rhemy, mas com o avan\u00e7ar da noite o sono estava a ser cada vez maior&#8230; a ideia era dormir apenas 30 minutos para podermos aguentar bem at\u00e9 ao ref\u00fagio seguinte a a\u00ed dormir umas duas horas. Acabamos por seguir logo de Saint Rhemy e para nossa surpresa o abastecimento seguinte n\u00e3o estava onde era esperado, tivemos que fazer mais uns 3 km&#8217;s e subir uns 300m de desn\u00edvel!! Cheg\u00e1mos a uma enorme vacaria onde afinal era o controle\/abastecimento quase no Col de Malatr\u00e1, muito cansados e com sono. O ref\u00fagio que era suposto ser o controle estava fechado, assim a vacaria foi a solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, e para dormir foi no ch\u00e3o de azuleijos bem frio&#8230; tentar dormir, pois estava sempre a entrar e sair atletas que tentavam dormir todos ao molhe!! A minha &#8220;cama&#8221; foi com a manta isot\u00e9rmica no ch\u00e3o, as cal\u00e7as imperme\u00e1veis e ainda o micro-polar apenas para as minhas costas, as pernas ficaram no ch\u00e3o bem frio, o que at\u00e9 estava a saber bem tendo em conta como tinha as coxas. Foi dif\u00edcil adormecer mas l\u00e1 consegui, acordei meia-hora depois com o Pedro a dizer que ia arrancar, n\u00e3o conseguia dormir e estava com muito frio, preferia seguir e dormir ent\u00e3o no ref\u00fagio Bonatti.<br \/>\nMal sab\u00edamos o que nos esperava, subida final do Col Malatr\u00e1 (2925m) era bem t\u00e9cnica e perigosa!!! Na noite anterior, os volunt\u00e1rios dos controles disseram que estava a nevar neste colo e que o controle anterior n\u00e3o deixava passar nenhum atleta sozinho, sa\u00edam sempre em pares para o fazer&#8230; e mal chegamos l\u00e1 vimos porqu\u00ea, a subida era quase uma parede vertical com muitas pedras e are\u00e3o, de bicos de p\u00e9s e bast\u00f5es bem fincandos l\u00e1 fomos subindo e a parte final do Col foi uma sec\u00e7\u00e3o de rocha com passadi\u00e7os como uma via ferrata e uns cabos para nos agarrarmos!! Uma outra preocupa\u00e7\u00e3o foi as pedras, pois com a nossa progress\u00e3o ca\u00edam alguma pedras o que podia magoar seriamente algum atleta atr\u00e1s de n\u00f3s.<br \/>\nDepois do Col de Malatr\u00e1 o trilho era bem f\u00e1cil at\u00e9 ao ref\u00fagio Bonatti, tendo sido o sono novamente a \u00fanica dificuldade, pelo que ao chegarmos ao ref\u00fagio optamos por dormir das horas. Estas horas de descanso foram novamente de ligeira febre e sa\u00ed do ref\u00fagio em direc\u00e7\u00e3o a Courmayeur novamente com a garganta a me incomodar! A descida foi lenta, a prova estava feita n\u00e3o valia a pena entrar em locuras e fazer uma les\u00e3o desnecess\u00e1ria, apenas a descida do Ref\u00fagio de Bertone exigia alguma aten\u00e7\u00e3o&#8230; a meio da descida, tinh\u00e1mos uns amigos \u00e0 nossa espera e que nos seguiram at\u00e9 a meta, companhia esta que serviu de analg\u00e9sico, pois as dores passaram quase por completo!!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com uma bandeira de Portugal, eu e o Pedro cortamos a meta em Courmayeur 145 horas depois, sem d\u00favida a chegada desportiva que mais significado teve para n\u00f3s! Para tr\u00e1s ficaram muitas incertezas, muitas dores, pouco sono, mas em compensa\u00e7\u00e3o tivemos uma enorme aten\u00e7\u00e3o e carinho por todos os volunt\u00e1rios em todos os controlos, e acima de tudo uma enorme camaradagem entre todos os atletas, nesta prova ningu\u00e9m foi mais que outros, fomos todos iguais, depend\u00edamos da companhia e for\u00e7a de uns dos outros&#8230; ap\u00f3s terminar a prova ao vermo-nos uns aos outros, os sorrisos eram enormes e os abra\u00e7os bem fortes pelas lembran\u00e7as dos momentos de dificuldade que foram suavizados por essa companhia. Companhia muito importante, foi mais uma vez, a do camarada Pedro Alves&#8230; um grande atleta com quem tenho o orgulho de partilhar grandes momentos da minha vida!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para terminar, queria dedicar esta prova \u00e1 minha irm\u00e3 Dalila como prometido, a minha f\u00e3 n\u00famero um que mesmo bem distante\u00a0 acompanha sempre todos os km&#8217;s que vou avan\u00e7ando&#8230; e tamb\u00e9m agradecer a todos os amigos que nos enviaram sms&#8217;s de apoio durante a prova, l\u00ea-las nas bases vitais foram uma for\u00e7a extra para voltar a sair, bem como o acompanhamento que tivemos no Facebook conforme podemos ver depois da prova&#8230; a todos um muito obrigado, foram parte disto tamb\u00e9m!!&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=DD31G4VI6H4&amp;feature=player_embedded\" target=\"_blank\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi no passado s\u00e1bado, dia 19 de Setembro, que os atletas do Clube Aventura da Madeira Gon\u00e7alo Silva e Pedro Alves se tornaram finishers na primeira edi\u00e7\u00e3o do dif\u00edcil Tor des Geants, terminado ambos a prova em 145h11m na 148\u00aa e 149\u00aa posi\u00e7\u00e3o, respectivamente. 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